Flores Selvagens
12/03/2010
O Espiritismo é a fonte onde nos dessedentamos. É o pão da alma. O reconforto do infeliz. Caldo quente no estômago faminto.
No passado, as religiões de forma geral nos satisfizeram e tiveram seu valor na nossa ascese espiritual (criança se satisfaz com meias verdades), porém hoje, mais “crescidos” elas já não surtem o efeito esperado. Questionamos suas afirmativas, sentimos que há incoerências e absurdos incompatíveis com a soberana justiça do criador. Sentimo-Lo e vemo-Lo com outros olhos. Ele já não é mais o Deus irado, o Deus vingativo; o Deus humanizado. Ele não é mais temido, e sim amado. Ele é o Pai compassivo cuja justiça é inexorável, mas se faz com amor. “O Pai não quer a morte do pecador”, mas sua transformação. Entendemos o perdão (em razão dessa mesma justiça), como oportunidade de se voltar atrás e consertar o erro; sem danação eterna. Entendemos o perdão no sentido de não cultivar desejos de vingança. Entendemos o perdão como esquecimento da ofensa.
Não fosse “o curso superior” que fizemos dentro do Espiritismo, o ateísmo predominaria, pois fé sem racionalidade; obediência cega a conceitos de criaturas tão falhas quanto nós mesmos, não toca a mente e o coração diferenciados.
Porém, se o Espiritismo foi bem compreendido, deixa a desejar no sentido de ser, hoje, bem vivenciado. Claro, há exceções.
Sua regra áurea é o amor seguido da humildade. Amor sem humildade não é amor, e humildade sem amor é hipocrisia; é falta de outra alternativa; falta de outra porta por onde escapulir.
Ouvi certa ocasião, (perdoe-me se não me lembro de quem) que quando o Espiritismo crescesse em número, em detrimento da qualidade, seria um sinal de que algo estava saindo dos eixos.
Hoje, percebo contristada, que muitos espíritas ficam em cima do muro; ou acham que só a aparência de virtuosos já basta. Alegam a necessidade da reforma intima (para os outros) enquanto eles seguem cultuando o próprio ego. Lamentável. Sinto isso até nos divulgadores e trabalhadores da doutrina.
Talvez seja um alerta velado da espiritualidade para todos nós, pois o mal só deve ser divulgado se servir como um bem a quem se dispuser a meditar nele e a abraçar a Doutrina com fé, ardor, amor, pois esta é uma doutrina que não combina com inércia; hipocrisia e/ou exterioridades.
Principalmente aqueles que ocupam a tribuna na indispensável tarefa de esclarecer, têm a obrigação de cultivar a humildade e pregar primeiro a si mesmo.
Resta-nos a alegria de saber que – flores selvagens que ainda somos – um dia nos transformaremos em lírios e rosas a enfeitar o jardim das muitas moradas do Pai.
Lourdes Carolina Gagete.
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