Transtornos do Humor
15/07/2010
SONIA THEODORO DA SILVA
Os males do homem estão hoje nos jornais, nas revistas, na internet, nos livros. Nunca se falou tanto em satisfação pessoal, realização profissional, felicidade conjugal, convivência em harmonia. Nunca se investiu tanto na própria em imagem. Todos os recursos disponíveis são aplicados na manutenção das aparências apoiada nos aparatos da tecnologia que exalta esse princípio. E nunca houve tanta discórdia, tantos descaminhos, tantas dores e conflitos existenciais. Não que estes nunca estivessem presentes no convívio humano; a tradição opõe o riso de Demócrito às lágrimas de Heráclito: ambos, diz Montaigne “foram dois filósofos, o primeiro dos quais, achando vã e ridícula a condição humana, só saía em público com um semblante zombeteiro e risonho; Heráclito, sentindo piedade e compaixão por essa mesma condição nossa, trazia o semblante continuamente entristecido, e os olhos carregados de lágrimas...”. Por certo não faltam motivos para rir ou chorar, comenta Comte-Sponville.
Mas qual a melhor atitude diante do quadro existencial atual? É a Filosofia Espírita quem nos faculta possibilidades as mais diversas, e todas contidas em seus princípios norteadores para o encontro consigo mesmo: reencarnação, lei de causa e efeito, Deus, pluralidade dos mundos habitados, possibilidade de comunicação entre dimensões tão aparentemente opostas quanto poderiam ser Espíritos desencarnados e almas da Terra. Não que estes princípios estivessem ausentes das culturas de todos os tempos. A fé espírita, porém, desprovida de aparatos religiosos, é aquela que nos remete diretamente à nossa natureza divina, porque divino é o autor da Criação; é ela que nos concede esperança, e nos convida a nos olharmos mutuamente como irmãos de uma mesma e longa jornada. É ela ainda que tranquiliza a alma, não como Sêneca aspirava, mas na ação, e na construção de uma nova sociedade em bases legítimas, porque desprovidas de sentimentos subalternos. A alternância dos humores, cíclicos porque estimulados pelo interior em conflito e o exterior em desarmonia, quando não analisados sob as circunstâncias da eternidade da alma e da boa ciência focada na realidade espiritual de nossas naturezas, certamente continuará a fazer vítimas. E o sofrimento continuará a ser o móvel de nossa evolução, quando muito melhor seria apaziguar nossas tristezas na doce certeza de que elas são temporárias. Quem sabe assim, daríamos o primeiro passo para a desconstrução dessa sociedade erigida em bases eloquentemente frágeis, já que a si mesma não tem mais forças para sustentar-se.
Publicado pelo Spiritist Psychological Society Journal, Londres, Inglaterra.
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