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Ser ou Não "Ser" Espírita ("Proselitismo"?)
24/05/2010

“A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”
(Merleau-Ponty)

Janela


SONIA THEODORO DA SILVA – SP


Há tempos ouço o seguinte: não devemos obrigar as pessoas à adesão espírita, pois isso é fazer proselitismo. E ainda: cada criança ou jovem deve escolher o seu caminho, afinal, Kardec disse que o Espiritismo não é proselitista. Em todos esses momentos citados, com algumas variantes, mas sempre com o mesmo sentido, sentimos que a dúvida permaneceu no ar: afinal, o que é ser espírita? Mas o mais interessante é: o que é ser proselitista? E ainda, por que a preocupação reinante no pensamento dessas pessoas de não demonstrarem a sua “adesão” ao Espiritismo? Em que isto estaria confrontando outras religiões, ou doutrinas, ou crenças?

Se lançarmos algumas perguntas, tais como: qual o papel do espírita para consigo mesmo e a sociedade; em que o conhecimento dos princípios espíritas poderia mudar radicalmente o enfoque da vida das pessoas, aqui ou em qualquer outra parte do mundo (desde que aceitos, claro); teríamos uma avalanche de “acho que..., bem, penso que...”. Pois bem, é justamente aí que o “ser espírita” entra em questão. Vamos por partes, muito embora as alternativas que ofereçamos a seguir obviamente não fechem questão, pois se assim o fosse, também estaríamos limitando as possibilidades humanas de especularem a favor do bem viver, conforme a bússola que a Filosofia Espírita nos oferece.

Comecemos por definir o Espiritismo como um movimento efetivo de transgressão, que aqui não significa fomentar revoltas, mas pensar e agir contra a maré do senso comum e apresentar novas alternativas para o bem viver individual e coletivo através do conhecimento sólido e bem estruturado de seus princípios condutores da Vida. Por exemplo, todos sabem que a ética é uma disciplina das atitudes, porém, nem todos tem o alcance moral desse conceito. Jesus no-la oferece quando diz do “amar ao próximo como a si mesmo,” A Filosofia Espírita naturalmente amplia esse conceito quando detalha o poder dos efeitos sobre as causas determinantes, ou seja, pelo fato de vivermos num plano evolutivo moral onde o determinismo se manifesta como efeito das causas morais geradas por nós. Mas não há, então, determinismo divino? Sim, há determinismo divino que se manifesta através das leis que repousam na consciência humana (v. O Livro dos Espíritos, 3ª.parte, Leis Divinas ou Naturais). Quanto mais evoluído é o ser, maior será a percepção dessas leis; é quando o discernimento se manifesta plenamente, numa cosmovisão que abarca a realidade de uma perspectiva inédita. Este é o condicionamento das Leis; a evolução do Espírito. E quanto ao livre-arbítrio? Está inserto nesse movimento de tomada de consciência dos conteúdos das leis em si, na interexistência, já que a liberdade faz parte desses conteúdos. Quanto à moral, ela qualifica esse processo, conduzindo o ser para o reto caminho do pleno Amor. Tal como Jesus disse e fez. Isto significa que não temos alternativas, nem poderes para evitar as consequências das más ações, pensamentos e atitudes, atraindo para nós a intensidade do mal praticado, quando consciente, sem remorsos ou retratação (aqui não se trata de Lei de Talião, instrumento de contenção das leis mosaicas).

Citemos como exemplo um sentimento dos mais perniciosos e ainda vigente no coração humano; a inveja. A profa. dra. em Filosofia pela USP Olgária Mattos, define ética, hoje, como o conjunto de experiências valorativas agregadoras, ou seja, na prática, trata-se de prudência nas ações, boas maneiras, valorar a palavra empenhada, a boa educação. Em algum momento, perdemos a capacidade de vivenciar tais valores, que são vistos como mero formalismo e perda de autenticidade. Uma das consequências, é o sentimento de inveja, visto como processo universalizado: o padrão “quero o que o outro tem”, foi substituído pelo “não quero que o outro tenha.” Segundo a professora Olgária, é um estado de guerra de todos contra todos. Segundo Dorrit (in: VENTURA, Inveja, o mal secreto, pg.18), a inveja é um sentimento inconfessável e tão insidioso que faz com que os outros seis pecados capitais pareçam até “invejáveis”: pode-se controlar a cobiça e acalmar a ira; seria possível sublimar a luxúria e saciar a gula; o orgulho não chega a ser mortal e a preguiça não é um estado irreversível. Mas a inveja, não, ela é inesgotável, sorrateira, calculista, cumulativa, duradoura, sub-reptícia, incontrolável ou, poderemos resumir numa só frase: um eterno descontentamento consigo mesmo. Segundo o autor, detalhar a inveja seria penetrar no âmago dos sentimentos e emoções menores do invejoso que vê no outro, não o seu semelhante, mas um adversário permanente. Em nossa cultura brasileira, ela foi associada ao mau-olhado, constante da própria etimologia da palavra inveja: invidere, em latim, tem essa conotação de olhar inviesado, de soslaio.

Em outro artigo de nossa autoria, “O poder da palavra” (in: SILVA, S. T., RIE, Fev.2000,pg.30), personificamos o sentimento da inveja em Iago, homem de confiança de Othelo, e que, no entanto, concorre para a sua desgraça, na impecável peça teatral de William Shakespeare.

O espírita estaria indene a tais sentimentos perniciosos? De forma alguma. Contudo, procurando saber de suas causas, estaria dando um primeiro passo para a sua solução. Mas o espírita é o único a interessar-se por essas “causas”? Mais uma vez, de maneira nenhuma. A inveja é assunto das religiões (vide a saga de José, no Antigo Testamento, invejado pelos próprios irmãos que tramam a sua morte), dos consultórios de psicanálise, das ciências psicossomáticas, da própria filosofia, da literatura, como citamos. Porém, o espírita terá um instrumento valioso de análise comportamental, ao buscar não nesta existência, mas na precedente, ou precedentes, as causas que motivaram ou ainda que deram origem ao seu sofrimento atual. Portanto, o ser espírita é muito mais do que apenas conhecer tais sentimentos. É conhecê-los, e tratá-los sob um ponto de vista muito mais amplo do que o dos analistas, restritos ao momento presente, muito embora haja casos em que o sofrimento se transforma em patologia, manifesto em mecanismos de transferência. Para estes, o tratamento para ser eficaz também deve abranger o consultório médico.

Voltemos aos conceitos. Proselitismo é o mesmo que sectarismo, partidarismo, Prosélito é aquele que, muito mais que adepto, é correligionário, partidário. No campo das religiões dogmáticas, o proselitismo levou, no passado, à violência física, ao banimento, ao desterro, à proscrição, condenação, e morte de livres pensadores como Abelardo, Galileu, Copérnico, Huss, Wycliffe, Lutero, Tyndale, e centenas de outros, muitos dos quais anônimos. Tudo isto tem influência cabal em nossa visão de mundo, já que somos herdeiros de nossa própria história. Aceita-se o Espiritismo mas não se alcança a sua proposta. Esta passa a ser apenas um componente de um “compromisso doutrinário”, como se a sua constituição fosse apenas regulamentar, institucional, proselitista, nunca consciencial. “Frequenta-se” ou “trabalha-se” numa casa espírita com a mesma postura dispensada à uma igreja ou a um lugar público qualquer; preservam-se cargos, perdem-se os conceitos sublimes da responsabilidade pelo desenvolvimento da consciência alheia, do próximo mais próximo, aquele, que Jesus nos indicou como irmão, irmã.

Portanto, aceitar a Filosofia Espírita não é apenas frequentá-la, dispensando-lhe favores, como numa obrigação consensual, É transgredir, como dissemos acima, com o senso comum simplista, simulacro de verdade que não se sustenta, pois tem suas bases na impermanência. A proposta filosófico-espírita muda a visão de mundo, o olhar cotidiano, como se mudássemos a paisagem de nossas janelas. René Magritte pintou um quadro, cujo título é “La clef des champs” (A chave dos campos), que ilustra este artigo. Esta é uma expressão francesa que sugere a liberação de todo constrangimento físico e mental. A Filosofia Espírita liberta mentes de seus sistemas, mas muito mais que isso, transporta-as para fora das suas janelas, para que o mundo seja visto como ele é, e as pessoas, como portadoras de suas legítimas competências e virtudes latentes. A Filosofia Espírita, sem fechar questões, indica-nos o caminho certo para aprofundá-las, com o apoio do livre pensar. Este, certamente, poderá ser o caminho reto e seguro para o ser espírita, interexistente e possuidor de todos os seus atributos eternos e imutáveis.

Bibliografia: KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos; PIRES, J.H. O Centro Espírita, Introdução à Filosofia Espírita.

Publicado: Revista Internacional de Espiritismo, em abril/2010).


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