Somos reencarnantes
29/12/2008
Rita Foelker
Qual a diferença entre se ter uma ou muitas vidas?
A reencarnação é um conceito tão importante na compreensão Espírita da vida, que Allan Kardec dá a entender que ela poderia ser considerada o único dogma do Espiritismo. Ele escreve, em O Livro dos Espíritos, item 222: “O dogma da reencarnação, dizem algumas pessoas, não é novo e foi retirado de Pitágoras.”
Não nos deve causar estranheza tal afirmação, pois, como expressão de leis universais, a reencarnação não é um patrimônio exclusivo da Doutrina Espírita, podendo ser encontrada, desde os primórdios, em muitas religiões e também em filosofias como as de Pitágoras, Sócrates e Platão.
Para muitos, a crença na reencarnação é puramente religiosa, e o que está em jogo é apenas uma questão de fé e adesão a um corpo doutrinário. O Espiritismo vai além desta noção simplesmente religiosa, de se acreditar, ou não, no fato de sermos seres reencarnantes, para analisar e aprofundar aspectos filosóficos da questão. Ou seja, entende-se como necessário, estudar e compreender o sentido da reencarnação, bem como as suas conseqüências sobre nossa maneira de pensar e agir.
O vocabulário Espírita no final de O Livro dos Médiuns, define reencarnação como “volta do Espírito à vida corpórea, pluralidade das existências”. Quer dizer que reencarnar é, como seres espirituais, renascermos na matéria e passarmos a viver num novo corpo.
Para o Espírito, as múltiplas existências oferecem diferentes circunstâncias de aprendizado e desenvolvimento dos potenciais latentes, intelectuais e morais. Uma encarnação inicia-se no momento da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, mas a entrada de um espírito em uma família carnal nunca é fortuita, atendendo à sua necessidade evolutiva e ao planejamento pré-encarnatório, onde o ser escolhe em que circunstâncias irá viver e quais características íntimas desejará trabalhar.
Ora, e quais seriam as conseqüências, para cada um de nós, da aceitação da reencarnação como realidade incontestável de nossas vidas?
Conhecendo melhor a nós mesmos
Bem, se a reencarnação existe, podemos pensar que esta não é nossa primeira existência. Ao olharmos para nossas características psicológicas, nossos interesses, nossas tendências e gostos – algumas vezes bastante diferentes dos de nossos familiares – podemos encontrar uma resposta para sua origem em nossas experiências pregressas. Igualmente, ao observarmos nosso filho que tem grande vocação para a música, quando ninguém na família jamais demonstrou desejo de experimentar tocar um instrumento, podemos pensar que ele deve ter desenvolvido o gosto musical em outras vidas. Talvez ele tenha sido até um músico adiantado em outra encarnação, o que explicaria sua destreza e habilidade em tocar, ou sua facilidade em compor e em compreender as lições do professor de música, quando outros alunos lutam com grande dificuldade. Isso nos ajudaria a entender também seus desafios presentes, como a falta de paciência ou a dificuldade de se relacionar com um irmão ou outro familiar em especial. Estas idiossincrasias podem resultar de vivências anteriores, sendo que a vida presente vem trazer a oportunidade de aproximação entre ambos para harmonização.
Não será difícil perceber uma linha de continuidade entre nosso passado e nosso presente. Somos o resultado daquilo que fomos construindo com nossas escolhas no decorrer dos milênios. Perceberemos, nesta auto-análise, que nos tornamos fortes em certos aspectos e que ainda permanecemos frágeis em outros tantos. Somos muitas vezes aptos a tomar decisões corajosas no âmbito profissional, mas nos descobrimos inseguros ao nos relacionarmos com pais ou cônjuges. Ao nos iniciarmos em novos projetos, às vezes, aparece aquela sensação de não termos recursos internos suficientes para levar a cabo a tarefa, o que pode ter resultado de momentos em que não soubemos lidar com fracassos em outras vidas. Enfim, nos dias de nossa existência atual, observaremos algumas situações em que agimos com desembaraço e aplicamos as virtudes já desenvolvidas da compreensão, do respeito, da serenidade, da autoconfiança, enquanto outras parecem trazer à tona nossas inquietações, medos, irritação, agressividade ou complexos.
Compreendendo os mecanismos que nos conduzem à superação das tendências inferiores, reconheceremos nestes momentos de conflito conosco mesmos os sublimes convites da lei maior para que nos modifiquemos, adotando novas atitudes, e, assim, nos movimentemos conscientemente no sentido do progresso espiritual.
O conhecimento de que somos reencarnantes oferece, também, uma nova compreensão das aparentes injustiças que nos atingem. Há momentos em que certos fatos, como o desencarne de pessoas próximas, ou o surgimento de enfermidades físicas, surpreendem-nos e parecem inexplicáveis. Mas também para muitos deles a reencarnação oferece uma possibilidade de compreensão, entendendo que se trata da colheita dos resultados de ações em vidas anteriores, que serão mais facilmente assimilados e superados quanto mais percebermos a amplitude da vida imortal e menos nos apegarmos ao imediatismo na solução dos problemas presentes. A própria dificuldade em manter empregos ou relacionamentos pode possuir raízes no passado de nossas muitas experiências na carne. A auto-observação e a mudança de hábitos mentais – e alguns são difíceis de mudar porque nos acompanham há séculos – podem nos ajudar a iniciar um novo momento de maior equilíbrio e satisfação conosco mesmos e com a vida.
Rumo ao futuro imortal
Como já ficou subentendido acima, outra conseqüência, bastante interessante, do conceito da reencarnação, em nossas vidas, diz respeito ao futuro. Se uma conexão existe entre o presente e o passado, também o futuro surge como o campo fértil das infinitas possibilidades de plantio. Na solidariedade que reúne o que fomos, o que somos e o que seremos, percebemos as implicações das escolhas que fazemos diuturnamente.
Há aqui um acréscimo de responsabilidade por nossos atos, palavras e pensamentos, a partir da consciência do quanto eles influenciam nosso porvir. Mas há, ainda, e sobretudo, a percepção de que podemos agir para criar a realidade em que desejamos viver. Se queremos viver em harmonia, é necessário deixar de lado idéias e gestos que levem à desarmonia. Se queremos ter saúde e bem estar, precisamos abandonar hábitos prejudiciais e causadores de desequilíbrio orgânico ou psicológico. E isto não se refere apenas aos anos que ainda viveremos neste corpo, mas terá repercussões na vida espiritual e nas novas reencarnações. Pequenas mudanças no modo de abordar situações e de agir no dia-a-dia podem, com o tempo, criar grandes reflexos positivos para nossa própria felicidade. Perdoar em lugar de reclamar, compreender em lugar de julgar, estes e outros exemplos de escolhas, livremente assumidas, podem representar mudanças profundas para os dias que ainda viveremos do lado de lá ou de cá.
Um sentido para a vida
Se somos reencarnantes, nossa vida adquire uma importância e um sentido a mais, pois sabemos que ela é parte de um grande projeto de aumento de consciência de nós mesmos, de conquista de conhecimentos e de melhores sentimentos que nos ajudarão a sermos felizes pela posteridade infinita.
Com esta percepção, algumas coisas que pareciam grandes se tornam pequenas, enquanto outras que pareciam insignificantes assumem um novo significado.
Kardec use utiliza de uma imagem em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a daquela pessoa que enxerga o mundo com a perspectiva da vida atual, em comparação com a visão daquele que tudo contempla do ponto de vista da imortalidade. Parece apropriado comparar aquele que tem o conhecimento da reencarnação, com o observador que se coloca em mirante de localização privilegiada, que tem um horizonte mais amplo e uma percepção mais abrangente de sua situação atual. “O Espiritismo dilata o pensamento e lhe rasga horizontes novos. Em vez dessa visão, acanhada e mesquinha que o concentra na vida atual, que faz do instante que vivemos na Terra único e frágil eixo do porvir eterno, ele, o Espiritismo, mostra que essa vida não passa de um elo no harmonioso e magnífico conjunto da obra do Criador.” (Capítulo II, 7)
A aquisição do conhecimento da reencarnação como um fato inescapável de nossa constituição espiritual torna todos os nossos atos, nossas opções, nossa convivência com pessoas próximas e com o meio social, muito mais valiosos, levando-se em conta que estamos cultivando as capacidades de nossa alma, plantando sementes de bem e de paz com vistas à imortalidade infinita.
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| Resenhas do Leitores |
| Fátima Barbosa |
As considerações efetuadas são pertinentes e adequadas. Afinal, se somos espíritas e reencarnacionistas, este fato só terá importância se servir de base para o nosso progresso moral, pois de nada adianta conhecer se não incorporamos à nossa vivência, aquilo que conhecemos. |
15/01/2009 |
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