Simplicidade voluntária
27/10/2008
Rita Foelker
Sei que este tema vai contra a corrente da maioria dos livros de auto-ajuda e receitas de prosperidade que encontramos por aí. Parece que estamos tão acostumados ao consumismo, que uma pessoa que pudesse comprar e ter muitas coisas jamais em sã consciência poderia pensar em não fazê-lo. Mas estou propondo um raciocínio alternativo, se você quiser vir comigo, começando pelo trecho de um livro que aprendi a amar:
“Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e gregos eram uma classe que se notabilizava pela extrema pobreza de bens exteriores, em contraste com a riqueza interior. Não sabemos muito sobre eles, admira porém que saibamos tanto quanto sabemos. O mesmo acontece com reformadores e benfeitores mais recentes da nacionalidade deles. Ninguém pode ser um observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição vantajosa que chamaríamos de pobreza voluntária.”
(Extraído de Walden, ou a vida nos bosques)
Uma perspectiva da humanidade a partir de um estado de pobreza voluntária é uma perspectiva favorecida, concordo com Henry David Thoreau (1817-1862). Conseguir apreciar os movimentos e desejos humanos, sem o contágio da ambição e da sanha consumista, pode tornar nossa visão mais clara.
Daniel Quinn em seu livro Ismael – Um romance da condição humana diz que escolhemos o estilo de vida de “pegadores”, de criaturas que se apropriam das coisas e dos seres. Em Ismael, é narrada a história de como o mundo se tornou o que é, mas vista pela perspectiva de um gorila. Sermos "pegadores" altera nosso ponto de vista e o que o gorila fala de nós é muito pouco lisonjeiro. Enquanto vivemos motivados pelo desejo de nos apoderarmos de tudo, outros povos, segundo a mesma obra, como os indígenas e os aborígines, escolheram ser “largadores”, ou seja, escolheram viver no mundo sem ter de virarem donos dele. E o diagnóstico é que os pegadores estão fadados à extinção, pois criaram um modo de vida insustentável, enquanto os largadores vão continuar por aqui.
Pobreza voluntária não é miséria ou indigência, pois o que Thoreau defende emWalden é precisamente uma vida digna, confortável, de prazeres simples, não atormentada pela ambição do supérfluo. Em suma, uma vida simples.
Em O Livro dos Espíritos, estes responderam a Kardec que felicidade em nosso mundo consiste na consciência tranqüila e na "posse do necessário". Sei que posso estar forçando uma conclusão aqui, mas me parece apropriado supor que a posse além do necessário pode ser fonte de infelicidade. Diz Thoreau, noutro trecho: “os homens não são tanto os guardadores de rebanhos quanto os rebanhos são os guardadores dos homens”. Ou seja, é comum que nos tornemos escravos dos bens que cremos controlar...
Deixo todos esses fragmentos de idéias aqui para gerar pensamentos em quem me ler. Pode até parecer excesso de poesia. Mas talvez um pouco de poesia, como a que Thoreau descobriu na sua vida junto à natureza, ajudasse as nossas vidas terrenas a serem um fardo menos pesado que muitas vezes tem sido.
A favor de adotarmos uma atitude de simplicidade voluntária, recordo de Francisco de Assis. Dizem que ele era pobre, no entanto, era rico. Ele pertencia a uma das famílias mais ricas (materialmente) de Assis. Podia ter o que quisesse - roupas, jóias, conforto, mulheres. Contudo, ele um dia percebeu que em seu coração faltava uma coisa que não encontrava em nada disso. Então fez a opção por uma vida simples, sem posses materiais.
Num mundo em que a inteligência, costuma ser medida pela quantidade de dinheiro ganho (às vezes, fazendo vista grossa para os meios pelos quais foi obtido), e no ano em que completamos 800 anos de franciscanismo, cabe perguntar pelos exemplos realmente memoráveis de milionários e poderosos que a história já conheceu. Será que superam a vivência moral do poverello, seu exemplo cristão de múltiplas inteligências altamente desenvolvidas e de amor a todos os seres? Que falta lhe fizeram realmente os bens de que abriu mão?
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sobre este artigo
| Resenhas do Leitores |
| Reginaldo Machado |
Parabéns Rita, isso que é o exercício do "Pensar". Penso ser assim, que sairemos dessa órbita absorvedora que estamos imersos. |
28/12/2008 |
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| Sérgio Bezerra |
Parabens, esta nota reflete a realidade de hoje. Muita procura gera desencontro. |
01/05/2009 |
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