Mito Da Caverna: A Dura Realidade - Parte 4
20/01/2009
Mas lá vai nosso destemido “Filosofo”(1), libertando-se dos grilhões que lhe atavam a mente e, em sua loucura pela verdadeira Luz, escapa da Caverna e se depara com um Mundo real e não um Mundo de sombras e mentiras ao qual o acorrentaram durante tanto tempo. Ele assiste a agonia dos belos porquinhos que não fazem propaganda do toucinho porque descobre que se assim o fizessem, estariam vendendo a própria vida, então descobre que enquanto estava acorrentado, era-lhe impossível fazer essa conexão entre a vida e a morte de seres que lhe ensinaram, não possuíam qualquer valor. Ele começa a ver que os bois atléticos que vendiam a si e a seus irmãos, hoje correm de medo ao sentir o cheiro da morte de seus companheiros; que na maioria das vezes, por causa de uma produção que precisa aumentar a cada dia, a pistola pneumática não funciona 100% e eles acordam sentindo a dor de uma garganta dilacerada, enquanto aspiram o odor de seu próprio sangue que se espalha, toda vez que seu apavorado coração pulsa. Ele enfim descobre que a vaquinha da caixa de leite, produz leite acima da média porque toma hormônios e que suas tetas incham e ficam inflamadas pela mastite depois, quando não serve mais, é arrastada para qualquer frigorífico para virar ração animal, já que sua carne não serve para alimentação do rebanho humano. Que seu bezerrinho não fica saltitante pelo campo como lhe mostraram, mas que desde tenra idade é impedido de mamar, sendo retirado de sua mãe para ser confinado por 2 a 3 meses, amarrado,sem espaço para poder movimentar-se, ficando anêmico para que alguns apreciem sua carne clara, levemente rosada, a carne de um filhote que sofreu desde seu nascimento, um bezerrinho igual ao daquele desenho(2) que ele assistiu e o qual hoje, seu próprio filho assiste.Ele descobre que na verdade, aquele “paraíso’ no qual o fizeram acreditar, onde os animais eram felizes e não sofriam, não passa de um “inferno” de dor e agonia, uma realidade virtual que nos engana, nos impedindo de presenciar a realidade.
“(...) o intelecto ilude, dissimula, forja imagens luminosas, tudo para lançar um véu sobre esse fundo trágico e assim continuar vivendo.”(F.N)
E o filosofo volta a Caverna para contar o que viu, e sabemos o que acontece tanto na visão de Platão , quanto na visão de Nietzsche e Schopenhauer. A maioria o chama de louco, outros o maltratam e o excluem do rebanho; uns poucos se arriscam a sair da Caverna para presenciar a Verdade, porém, a grande maioria prefere continuar vivendo na escuridão, na segurança daquele rebanho social, porque a realidade os fará mudar e se eles mudarem poderão acabar excluídos. E “assim continuar vivendo”. Somente a coragem e a determinação na busca pela verdade podem libertar os homens das correntes mentais do comodismo, essas, muito mais fortes do que os grilhões de aço. O que podemos afirmar é que, após tantos Séculos de escuridão, a grande maioria das pessoas ainda sente medo de mudar, sentem medo do novo e preferem ignorar a palavra daquele que presenciou a realidade, preferindo enxergar somente o que existe nas sombras de suas paredes mentais.
Nesse exato momento, enquanto o Filósofo tenta mostrar a verdade, muitos ainda o estão ridicularizando e negando ao dizer : “Não, isso não é a verdade, os animais foram criados para nos servir, nós precisamos de proteínas, precisamos da carne, existe o abate humanitário, sem dor, os animais não sofrem, esse bife que como, nada mais é que um simples pedaço de carne, não há vida por detrás dele,não desejo saber como ele chegou aqui, só quero fazer o que sempre fiz, agir como fui condicionado a agir , falar e pensar como me condicionaram a falar e pensar, o Livro dos Espíritos(4) assim me permite”, e já conversamos outro dia sobre o Livros dos Espíritos não ser um livro de proibições , mas de moralidade e ética. E essas palavras continuam soprando em sua parede mental, palavras que não são delas, palavras que lhe foram ditas, imagens que lhe foram projetadas para que ela pudesse ser mais um, entre o rebanho que pensa igual, que age igual, que se sente na realidade mesmo que aprisionada pelos grilhões do comodismo e da alienação mental.
Mas, mesmo dentro do Livro dos Espíritos, nós temos a opção para escolher entre o que podemos e não podemos fazer, se nos é ou não meritório realizar determinadas coisas. Hoje, nesse exato momento nós saímos da Caverna, a opção agora é saber o que faremos a respeito: Voltar para dentro ou encarar a vida de outro modo?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos – Editora FEB.
PLATÃO - A República -Editora Martin Claret- 2ª Edição
NIETZSCH - Friedrich - Os Pensadores -Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral
1- Na verdade esse termo é usado por Platão, na Teoria das Idéias, numa referência a morte de Sócrates, mas no sentido do texto o termo pode ser compreendido como uma pessoa que defende os animais bem como qualquer outra que consiga visualizar além daquilo que lhe foi ensinado.
2- Referência ao desenho Jackers, As aventuras de Piggle Winks, onde há uma confusão entre animais, pois uns falam enquanto outros são explorados por seus donos, onde, notadamente todos os personagens são animais.
3- Nietzsche, Verdade e Mentira do Sentido Extra Moral, faz ainda uma pequena referência ao dizer que de um dia, assim como veio ao mundo, o homem poderá desaparecer e com ele, toda arrogância de se sentir um ser a parte na criação.
4- Questão 723 do Livro dos Espíritos , a qual é mais comumente usada para rebater os argumentos sobre a opção da não alimentação carnívora(vegetarianismo, veganismo, frugivorismo).
Simone Nardi
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