Mito da Caverna: Espiritismo X Equilíbrio - Parte 2
06/01/2009
Existem inúmeras descobertas surgindo todos os dias, inúmeros mitos sendo derrubados enquanto novas verdades tomam seus lugares; embora saibamos que o espiritismo é em si : ciência, filosofia e religião, de alguns anos para cá é possível notar que a religião se apossou dos demais pilares e, de certa forma em alguns casos, se ressente um pouco de algumas novas verdades que surgem. Isso não é um fato exclusivo do Espiritismo, mas da grande maioria das religiões, pois tendemos a transformá-las no que desejamos de bom para nós e não para o que ela deseja de nós, que sejamos bons. Bertrand Russel em um artigo intitulado "A Filosofia entre a Religião e a Ciência", nos diz mais ou menos o seguinte:
"Todo conhecimento definido pertence à ciência e todo dogma quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à religião. Mas entre a religião e a ciência existe uma Terra de Ninguém, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ninguém é a filosofia."
E são esses três pilares que sustentam o Espiritismo, lhe dando o respaldo para que não se torne dogmático, para que não se torne algo dentro dele, uma verdade absoluta, que não possa ser refutada. E, hoje, há uma verdadeira avalanche de descobertas cientificas, que são lançadas em nossas caras todos os dias, desde a clonagem, até o uso de células tronco, porém vamos aqui nos reservar ao direito de nos ater somente a uma questão em particular, aquela a qual a espiritualidade nos propôs disseminar e que talvez seja, entre tantas verdades, a de mais difícil aceitação.
Imaginemo-nos dentro da Caverna Platônica, sim, porque podemos até não acreditar, mas muitas pessoas permanecem ainda hoje dentro dessa caverna, olhando para sombras e acreditando que aquilo seja a mais pura e autêntica realidade. Não temos correntes de aço e podemos nos libertar a qualquer momento, porém, embora as correntes não sejam de aço, elas existem de uma forma alegórica e são feitas com um material, mil vezes mais resistente: O comodismo. Esse tipo de grilhão sufoca a mente e o corpo, e embora seja simbólico e não físico, acaba sendo ainda pior que as correntes de aço que Platão usava em sua teoria, pois na Teoria das Idéias elas prendiam somente a matéria e a corrente do comodismo e da alienação prende a mente e a vontade de conhecer a realidade.
Pois bem, estamos na caverna de nossos vícios, de nossos comodismos, agindo e vendo as mesmas coisas desde nossa tenra infância, do mesmo modo, há séculos em nossa parede mental. Acostumamo-nos a isso, aquelas imagens, aquelas vozes, aquelas crenças pessoais e tradições seculares. Sendo moldados ética, moral e, esteticamente, pelos padrões da nossa exigente sociedade, através das microrelações e dos micropoderes(1) - entre pais e filhos, alunos e professores, etc - que sofremos e que exercemos sobre os outros. Eis que um dos prisioneiros se liberta, tal como no Mito da Caverna de Platão, e ao sair dessa escuridão ele se depara com a verdadeira realidade.
No início seus olhos doem ao contemplar a luz da verdade. Sua mente julga ser aquilo tudo uma mentira, pois não reconhece ali todo aquele "conhecimento" que obtivera dentro da caverna. Ele se assusta, pensa em voltar para dentro, pois se sente mais seguro lá. Mas algo o impede de retornar para dentro da caverna: o desejo pelo novo conhecimento, a descoberta, a visão de algo que desconhecia : A luz da verdade.
O que você faria se descobrisse uma nova vida, uma nova verdade, se descobrisse que, o que conhecia até então era apenas a projeção de outras mentes em sua vida, de outros pensamentos que ainda não haviam conseguido chegar até onde você chegou agora?
Ficaria calado ou voltaria para contar o que viu? Essa é a reflexão que deve ficar em nossa mente nesse momento. Teremos medo de mudar? De encarar essa verdade e contar ao mundo ou ficaremos caladinhos como se a verdade só pertence a poucos? E se fosse algo a qual nos acomodamos, a qual ignoramos, embora preguemos o contrário? Vamos buscar respaldo no Pentateuco para nossas fraquezas ou tentaremos encarar a verdade e através do Pentateuco, mudarmos, pois sabemos que nossa interpretação ali é que foi errônea?
Hoje como nos encaramos, somos mais ciência, mais filosofia, mais religião ou somos o equilíbrio entre os 3 pilares? Pois se somos o equilíbrio, nenhuma verdade nos fará mal e nos será fácil estudá-la e aceitá-la, vamos nos analisar e descobrir em qual pilar nos acomodamos nos dias de hoje.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos – Editora FEB.
PLATÃO - A República -Editora Martin Claret- 2ª Edição
RUSSEL, Bertrand - A Filosofia Entre a Religião e a Ciência
FOUCAULT – Michael – Microfísica do Poder –
1- Foucault M. – Micropoder seria a relação que um indivíduo exerce sobre o outro, nas relações cotidianas , em família e em sociedade, é a relação que molda o indivíduo ética, moral e esteticamente a sociedade, ou seja, o indivíduo é formado acreditando que é necessário o uso da carne animal na alimentação, e só consegue desvencilha-se disso quando se rebela aquilo que lhe foi imposto. Essa formação de corpos dóceis, de indivíduos domesticados, adestrados é muito útil a sociedade, pois esse sujeito moldado, acostumado a esse exercício de poder, "aceita" sem rebeldia, o que lhe é imposto. Quando consegue desvencilha-se disso, ocorre a punição simbólica, que é um meio de excluir o indivíduo dos demais indivíduos padrões que o geraram. "O exercício de poder se dá através da criação de discursos, que ao longo do tempo tornam-se "verdades". Tais verdades constituem o instrumento do poder, poder este que não está só na mão de uma classe, mas de todos os indivíduos que se moldam a sociedade. "
Simone Nardi
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