Fundação Espírita André Luiz | ArtigoA Dor nos AnimaisporEurípedes Kühl
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A Dor nos Animais 05/06/2006

Eurípedes Kühl

Dor no homem
Passemos a palavra para Léon Denis, em sua obra “Depois da Morte”, Ed., FEB, 1944, Rio de Janeiro/RJ:
“A dor é uma advertência necessária, um estimulante à vontade do homem, pois nos obriga a nos concentrarmos para refletir, e força-nos a domar as paixões. A dor é o caminho do aperfeiçoamento. Física ou moral, é um meio poderoso de desenvolvimento e de progresso. É purificação suprema, é a escola em que se aprendem a paciência, a resignação e todos os deveres austeros. É a fornalha onde se funde o egoísmo em que se dissolve o orgulho.”

Animais
Desde a edição do livro “Animais, Nossos Irmãos”, de nossa autoria, vimos recebendo surpreendente número de cartas de leitores, contendo instigantes perguntas:
- Se animais não têm consciência por que sofrem?
- Animais podem reencarnar nos mesmos lares nos quais eram amados ao morrer?
- Deve-se castrar animais para evitar prole?
Nossas respostas foram:

Sofrimento (dor) nas plantas e nos animais
(Com notas do Cap 12 do livro “Animais – Amor e Respeito”, também de nossa autoria):
Em “A Gênese”, de Allan Kardec, Cap XVIII, n° 8, encontramos que plantas e animais são atingidos por enfermidades.
Considerando que as plantas têm sensibilidade, podemos inferir que tal lhes causa sofrimento. Não temos condições de afirmar que sentem dor, apenas podemos constatar que:
- uma árvore cortada perde seiva e morre;
- galhos queimados, definham rapidamente; antes, à simples aproximação do fogo, retraem-se;
- muitas são as pragas que atacam culturas, além de parasitas que causam-lhes danos.
No caso dos animais, não há a menor dúvida que sofrem dor, tanto quanto nós.
Mas aí, não poucas pessoas ponderam:
— Se o homem resgata débitos contraídos por ações equivocadas, afastadas das Leis Morais, como justificar que animais e plantas também sofram? Que culpa lhes pode ser atribuída, se não têm, como nós, inteligência, livre-arbítrio e consciência?
Realmente, eis aqui um aparente contra-senso da natureza. Mas, em verdade, nada há errado nisso.
Quanto aos homens, não padece dúvida de que a Justiça Divina, para que cada ser galgue os degraus do progresso através de responsabilidade e esforço próprios, proporciona-lhes o mecanismo das reencarnações e engendrou o corpo físico suscetível a doenças e dor. Posicionou-os inicialmente em mundos primitivos e dali transfere-os para mundos consentâneos com o progresso individual de cada um.
Doenças são próprias do patamar evolutivo dos planetas atrasados, como a Terra. Ajudam o homem a desenvolver a inteligência, para debelá-las. A dor funciona como poderoso alerta de que algo não vai bem, espiritual ou fisicamente se falando.
Além do mais, a Lei de Causa e Efeito, baliza o equilíbrio da Justiça, fazendo retornar à origem, o Bem ou o mal. No caso do mal, ainda pela Bondade Suprema de Deus, o devedor pode ressarcir seu débito através de ações de auxílio ao próximo. Nesse caso, mesmo visitado por sofrimentos, estes já não lhe pesam tanto, eis que a Esperança e a Fé na Justiça do Pai, são poderosos anestésicos, além de potentes energéticos para suplantar dificuldades.
Muito bem.
— E dor nos animais? Não tendo inteligência, livre-arbítrio ou consciência, suas ações, necessariamente instintivas, apenas visam a sobrevivência. E em assim sendo, como lhes imputar culpa e o respectivo resgate?
Partindo da premissa de que Deus é a Perfeição Suprema e o Amor Absoluto, em nenhuma hipótese poderíamos aventar a menor possibilidade de que isso consista injustiça ou equívoco da natureza.
Outro tem que ser o enfoque.
Aqui, entra em cena a condição esclarecedora do Espiritismo.

Vamos nos demorar mais um pouco nas reflexões sobre a dor, de modo geral:
a. Em “A Gênese”, Cap III, Allan Kardec filosofa com grande profundidade sobre o bem e o mal, analisando detalhadamente sobre instinto e inteligência e, particularmente, sobre a “destruição dos seres vivos uns pelos outros”. No item 21, esclarece que “a verdadeira vida, tanto do animal como do homem, não está no invólucro corporal, do mesmo modo que não está no vestuário. Está no princípio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo”. Aqui, já temos conteúdo suficiente para refletir que danos físicos que destruam a matéria, isto é, dos quais resulte a morte, não destruem o espírito (naturalmente, revestido do perispírito, que os animais também os têm, embora de matéria mais rudimentar que a humana).
Prossegue Kardec, agora no item 24: “nos seres inferiores da criação, naqueles a quem ainda falta o senso moral, em os quais a inteligência ainda não substituiu o instinto, a luta é pela satisfação da imperiosa necessidade — a alimentação; lutam unicamente para viver; é nesse primeiro período que a alma se elabora e ensaia para a vida”.
b. O Espírito Emmanuel nos esclarece, de forma a não deixar quaisquer dúvidas, que a dor representa aprendizado, constante da trilha evolutiva de cada ser vivo, rumo à evolução; essa informação é textual, cristalina e não deixa margem a derivações filosóficas. Ei-la:
“Ninguém sofre, de um modo ou de outro, tão-somente para resgatar o preço de alguma coisa. Sofre-se, também, angariando os recursos preciosos para obtê-la.
Assim é que o animal atravessa longas eras de prova a fim de domesticar-se, tanto quanto o homem atravessa outras tantas longas eras para instruir-se.
Espírito algum obtém elevação ou cultura por osmose, mas sim através de trabalho paciente e intransferível.
O animal igualmente para atingir a auréola da razão deve conhecer benemérita e comprida fieira de experiências que terminarão por integrá-lo na posse definitiva do raciocínio.
Dor física no animal é passaporte para mais amplos recursos no domínios da evolução”.
(O REFORMADOR, Junho, 1987 - FEB).
Assim, mesmo que para muitos de nós tal seja penoso aceitar, prudente será refletir muito sobre o tema e sobre o quanto ainda ignoramos das coisas de Deus; alenta-nos considerar, com veemência, que o Pai jamais abandona qualquer dos Seus filhos. Com essa certeza, fica afastada, "ab initio", que a crueldade que vitima animais seja indiferente à Vida e ao Amor de Deus, presente no infinitamente perfeito Plano da Criação.
c. Juvanir Borges de Souza, em “Tempo de Renovação”, Cap 20, pág. 164, Ed.FEB, 1989, arremata: “para bem compreendermos o papel da dor será necessário situá-la como a grande educadora dos seres vivos, com funções diferentes no vegetal, no animal e no homem, mas sempre como impulsionadora do processo evolutivo, uma das alavancas do progresso do princípio espiritual” (grifamos).

Diante das assertivas acima, refletimos:
- animais sofrem para que registrem em sua memória espiritual, eterna, que a dor dói, é ruim; assim, ao evoluírem, alcançando a inteligência, já trarão na bagagem cognitiva, que a dor deve ser evitada - a própria, por auto-preservação e a do próximo, por ser esse um dos conselhos de Jesus para a evolução espiritual;
- nada nos impede de considerar que a dor, nos animais, completado o aprendizado, não mais se repetirá, sendo muito provável que ao desencarnarem, seja em que condições sejam, o sofrimento é interrompido no ato da desencarnação e sob patrocínio caridoso dos Missionários do Amor Eterno;
- aliás, não cremos que seja necessária mais de uma experiência dolorosa, para fixação do aprendizado; como existem milhares de espécies e milhões de moradas no Universo, há grande probabilidade que os animais percorram muitos desses mundos, em corpos adequados, acumulando experiências;
- como a restauração perispirítica é uma realidade do Plano Maior, nada nos impede também de imaginar que os perispíritos dos animais, se danificados, ali serão recompostos por Geneticistas Siderais, os mesmos que promovem as modificações tendentes à escala evolutiva da espécie (vide “A Caminho da Luz”, Cap “A Grande Transição”);
- se animais forem "anestesiados" por Espíritos Protetores, na hora do abate, para evitar a dor, ali não ocorreria fixação do aprendizado evolutivo; contudo, nada nos objeta raciocinar que em muitos, muitos casos mesmo, isso ocorra, porém em outras circunstâncias; por exemplo: quando a crueldade humana esteja presente, infligindo sofrimento a animais cujo programa reencarnatório não o previa;
- aos Espíritos que amam os animais, a eles provavelmente é delegada a função de orientar as espécies animais quando no plano espiritual e de os proteger, quando no material; neste, fazem-no com abnegação e amor, criando "habitats" e mantendo os ecossistemas; assistindo-os nos momentos difíceis pelos quais passam; consideremos, por exemplo, que quando um predador de grande potencial ofensivo (nunca se esquecer que foram os Promotores da Vida que disso o equiparam...) ataca uma indefesa presa (também de organismo engendrado pelos Guardiões da Vida Eterna), Deus está presente num e noutro animal; pela Lei do Progresso, certamente, no avançar do tempo, os papéis talvez sejam invertidos, após o que, ambos já terão em sua memória espiritual tal lembrança (automatismo biológico-espiritual); atingindo a razão/inteligência, só cometerão violência por auto-decisão, a bordo do livre-arbítrio; e, a partir do livre-arbítrio, a evolução passa a ser balizada pela Lei de Causa e Efeito - Ação e Reação.

Por oportuno, vejamos alguns trechos das sempre elucidativas instruções de Allan Kardec, Espírito, clareando o assunto, através mensagem contida em “O Diário dos Invisíveis”, psicografada por Zilda Gama (p. 73 a 75 da 1ª Ed., 1927, Editora O Pensamento):
(...)
“Bem sabeis que a dor, física e moral, é a lixívia que alveja a alma enodoada do ser consciente e responsável por seus atos; é a lâmpada que a inunda de luz, tornando-a eternamente radiosa.
(...)
Se só o homem fosse suscetível à dor e às enfermidades e os irracionais tivessem os organismos imunes ao sofrimento, insensíveis como o aço, romper-se-ia o elo que os vincula pela matéria, que é semelhante em todos os animais.
(...)
Os animais, quer os de constituição semelhante à do homem, quem os de organismos imperfeitos, não padecem, como os racionais, unicamente para progredir espiritualmente, pois são inconscientes e irresponsáveis, mas Deus, que tudo prevê, não os fez insensíveis à própria defesa e conservação, como meio de serem domesticados, tornando-os úteis às coletividades.
Um cavalo que fosse indiferente à dor seria capaz de precipitar-se, com o cavaleiro, ao primeiro abismo que se lhe deparasse, tentando livrar-se da sela e da carga importuna que lhe tolhem os movimentos, privando-o de viver às soltas pela vastidão dos prados ou à sombra das florestas. Por que recuam, temerosos, ante a ameaça de um calhau ou de uma farpa, um cão ou um touro enfurecido? Com receio do sofrimento que teriam se fossem por eles atingidos
(...)
Os irracionais necessitam da dor, para que possam, em estado de liberdade, defender a própria vida, temer as sevícias, sofrear os impulsos ferozes, procurar repouso e alimento, tornar-se menos perigoso ao homem, manter o instinto de conservação, que não teriam, se os seus corpos fossem desprovidos de sensibilidade. O homem progride mais pelos padecimentos morais que pelos físicos; nos irracionais predominam estes sobre aqueles.
(...)
A dor é útil aos animais para que os fracos e pequenos se defendam dos fortes e cruéis, procurando esconderijos inacessíveis a seus adversários nas furnas ou nas mais altas frondes”.


Ps.: Os conceitos aqui emitidos não expressam necessariamente a filosofia FEAL, sendo de exclusiva responsabilidade de seus autores.


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